Fogo quase para no Pantanal de MS, com 214 ha em 18 dias de outubro; área do ano é 29% maior que em 2025
Pelo satélite, a área queimada no estado é 8,8% da de 2024, e os focos caem 96%. Corumbá, Porto Murtinho e Aquidauana somam 69% do fogo, e o decreto de emergência vale até o fim de novembro.

A área queimada no Pantanal de Mato Grosso do Sul chegou a 124.441 hectares entre 1º de janeiro e 19 de outubro, 29,1% mais que os 96.388 hectares do mesmo período de 2025, segundo informativo da Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc) divulgado nesta terça-feira (20), com números do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul). Os eventos de fogo no bioma passaram de 135 para 166. O avanço quase parou em outubro: o informativo anterior, com dados até 1º de outubro, registrava 124.227 hectares, o que dá, pelas contas do Campo em Pauta, só 214 hectares a mais em 18 dias.
No estado como um todo, a área queimada caiu 25,4%, de 202.758 para 151.217 hectares, com recuo de 73,5% no Cerrado e de 82% na Mata Atlântica, o que deixou o Pantanal com 82,3% de tudo o que queimou em MS no ano. As ocorrências de incêndio em vegetação atendidas pelo Corpo de Bombeiros caíram 38,3%, de 4.201 para 2.593.
Para os pecuaristas pantaneiros, a diferença está no trabalho feito antes da seca. “Quando falamos em prevenção, precisamos olhar para o Pantanal como um território vivo e complexo. O produtor rural está diariamente nesse ambiente, conhece suas particularidades e pode contribuir de forma decisiva para uma cultura permanente de cuidado e prevenção”, disse ao Correio do Estado, em setembro, o diretor-executivo da Associação Pantaneira de Pecuária Orgânica e Sustentável (ABPO), Guilherme Oliveira. A entidade aponta o manejo integrado do fogo, o investimento público e os sistemas de monitoramento como fatores da queda em relação à média histórica.
Longe de 2024
A comparação com 2024 mostra outra escala. Pelo Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da UFRJ (Lasa), que mede a área queimada por satélite com metodologia própria, Mato Grosso do Sul somava 198.954 hectares queimados de 1º de janeiro a 19 de outubro de 2026, ante 176.526 hectares em 2025 e 2.249.674 hectares em 2024 no mesmo intervalo. Pelas contas do Campo em Pauta, a área deste ano equivale a 8,8% da de 2024. No bioma inteiro, incluída a parte de Mato Grosso, o Lasa registra 145,8 mil hectares, ante 106,9 mil em 2025 e 2,7 milhões em 2024. O Boletim do Fogo do Ministério do Meio Ambiente, com dados até domingo (18), aponta área 86,2% abaixo da média histórica de 2012 a 2025.
Os focos de calor seguem a mesma linha. Pelo satélite de referência do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Pantanal sul-mato-grossense teve 316 focos de 1º de janeiro a 19 de outubro, 7,9% menos que os 343 de 2025 e 95,9% menos que os 7.738 de 2024. A área maior com menos focos que em 2025 tem uma ressalva: segundo o boletim do ministério, os dados de área queimada não diferenciam incêndios de queimas prescritas ou controladas. Segundo a ABPO, até o início de setembro foram feitas 53 queimas prescritas e controladas no bioma, em cerca de 19,6 mil hectares.
Corumbá concentra a área
Pelo Lasa, Corumbá teve 90.874 hectares queimados no ano, 28% mais que os 70.980 hectares de 2025 e 45,7% de toda a área queimada no estado; em 2024, o município havia passado de 1 milhão de hectares no mesmo período. Porto Murtinho somou 34.636 hectares, alta de 42,3%, e Aquidauana, 11.620 hectares, oito vezes a área de 2025. Juntos, os três fazem 68,9% da área queimada em MS em 2026. No Inpe, Corumbá concentra 214 dos 316 focos do Pantanal sul-mato-grossense.
O calendário do fogo variou. Em Corumbá, 41.272 hectares, 45,4% do total do ano, queimaram em janeiro, e 41.706 hectares de julho a setembro. Em Porto Murtinho, quase tudo queimou de julho a setembro, e em Aquidauana, em janeiro. Em outubro, até o dia 19, o satélite registrou 336 hectares em Corumbá.
Nas fazendas, o fogo chegou à polícia e ao Ministério Público. Em 24 de setembro, a Polícia Federal deflagrou a Operação Pecus Exploratio, que investiga suspeita de incêndio criminoso e grilagem de terras da União em uma propriedade do Pantanal sul-mato-grossense; segundo a PF, perícia apontou mais de 4 mil hectares atingidos, e a Justiça Federal de Corumbá mandou bloquear o gado da fazenda. Em 1º de outubro, as fazendas Pé de Ferro e Guanabara, em Corumbá, atingidas em 2024, assinaram com o Ministério Público de MS acordo que exige aceiros e brigada permanente. Os investigados negaram ter provocado os incêndios e argumentaram que o fogo prejudicaria a própria pecuária; a autoria não foi determinada. Os informativos oficiais não estimam perdas de rebanho em 2026.
Emergência até novembro
O governador Eduardo Riedel decretou em 2 de junho estado de emergência ambiental por 180 dias em todo o estado, com base em nota do Cemtec que previa o agravamento do risco no segundo semestre sob o El Niño. O decreto, publicado em 3 de junho, permite contratar pessoal temporário, comprar equipamentos sem licitação e usar propriedade particular em caso de perigo iminente, manda abrir aceiros de 50 metros de cada lado de estradas e pontes e autoriza o Estado a fazer ou apoiar queimas preventivas em áreas com acúmulo de material combustível. “É uma medida que traz mais agilidade administrativa em situações de emergência”, disse na ocasião o secretário da Semadesc, Artur Falcette.
Do lado federal, o Ibama e o ICMBio destinaram 243 brigadistas e servidores, 32 veículos e 21 embarcações para o bioma nesta temporada, segundo o boletim do ministério. A chuva deve ajudar nos próximos dias: o Cemtec prevê instabilidade forte de quinta-feira (22) a domingo (25), com raios, rajadas acima de 70 km/h e granizo isolado, e o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) tem aviso de tempestade para Corumbá, Porto Murtinho e Aquidauana na quinta, na sexta-feira (23) e no domingo. Para novembro a janeiro, o Cemtec indica baixa probabilidade de fogo na maior parte do estado.
Para a ABPO, a lição dos últimos anos é que a prevenção precisa entrar na rotina das propriedades. “Cuidar das pastagens, da água, da biodiversidade e das condições da propriedade é também compreender os riscos que existem no território. A prevenção precisa fazer parte dessa visão de longo prazo”, afirmou Oliveira.
Com informações de Campo Grande News (informativo Semadesc de 20/10), Campo Grande News (informativo Semadesc de 2/10), Lasa/UFRJ – Alarmes, área queimada (MS, municípios e bioma Pantanal), Ministério do Meio Ambiente – Boletim do Fogo nº 13/2026, Inpe – BDQueimadas, focos do satélite de referência, Diário Oficial de MS – Decreto “E” nº 44/2026, Semadesc, Correio do Estado, Campo Grande News (Operação Pecus Exploratio), A Gazeta de Dourados (TAC do MPMS) e Inmet – avisos meteorológicos.



