Tapajós cai 69 cm em outubro e fica 1,12 m abaixo de 2025 em Itaituba; barcaças já levam 30% menos carga
Rota da soja de MT pela BR-163 segue sem a dragagem vetada pelo governo; no Pantanal, o Paraguai em Ladário está 30 cm acima de 2025, mas o SGB prevê nível abaixo de 1 metro em novembro.

O rio Tapajós em Itaituba (PA), em frente aos terminais de Miritituba que recebem a soja e o milho de Mato Grosso pela BR-163, marcava cerca de 1,70 metro nesta segunda-feira (19), segundo a estação telemétrica da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) operada pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB). Pelas contas do Campo em Pauta sobre as leituras da estação, o rio baixou 69 centímetros desde 1º de outubro e está 1,12 metro abaixo do nível da mesma data de 2025, quando a régua marcava 2,82 metros.
A vazante já reduz a carga das barcaças. Uma trading que atua na região disse à CNN Brasil que toda a frota continua navegando, mas com cerca de 30% menos carga por causa da redução do calado, a profundidade disponível para a navegação. No pico da seca, esperado para novembro, a perda por viagem pode chegar a 60%. A empresa afirma que a redução é compatível com o padrão da época, mas pondera que a estimativa não considera os efeitos de um El Niño muito forte. A Caramuru informou que segue operando a rota entre Itaituba e o porto de Santana (AP) sem interrupções, com volumes um pouco menores que os habituais.
O nível ainda não é o das secas recentes. Entre os nove anos com registro na estação desde 2016, os 1,70 metro desta segunda só superam os de 2023, quando o rio marcava 1,41 metro em 19 de outubro, e de 2024, com 0,92 metro. Em boletim de 14 de outubro, o SGB classificava os principais trechos do Amazonas e do Tapajós dentro da faixa de normalidade para o período.
Madeira volta a subir
No rio Madeira, rota da soja de Rondônia e do oeste de Mato Grosso até Itacoatiara (AM), a situação melhorou nos últimos dias. Em Porto Velho, a régua desceu a 2,43 metros na sexta-feira (16) e voltou a subir, chegando a 3,08 metros nesta segunda, nível acima do registrado na mesma data em sete dos dez anos anteriores. A Aprosoja-RO disse à CNN Brasil que a baixa do Madeira é esperada para a época e que não recebeu relatos de prejuízo. O ponto mais crítico da região é o rio Branco, em Roraima, com níveis próximos das mínimas históricas, segundo o SGB. A Aprosoja-RR relatou que a baixa do rio em agosto já atrapalhou o escoamento da soja.
Tapajós segue sem dragagem
O Tapajós entra no período mais seco sem a dragagem de manutenção pedida pelo setor produtivo. No fim de julho, o presidente Lula desautorizou a dragagem emergencial da hidrovia após manifestações de comunidades indígenas, segundo a CNN Brasil. Em agosto, o ministro de Portos e Aeroportos, Tomé Franca, afirmou que a profundidade ainda era maior que nos períodos críticos de 2023 e 2024 e que o governo monitorava o rio diariamente.
Em ofício enviado ao Ministério da Agricultura em 28 de agosto, ao menos 30 entidades do setor produtivo informaram que o Tapajós movimentou 16,8 milhões de toneladas em 2025, alta de 14,3% sobre 2024, das quais 88% eram soja e milho. Segundo o documento, a paralisação da hidrovia pode deixar até 5 milhões de toneladas de grãos sem escoamento e encarecer o frete em R$ 150 a R$ 250 por tonelada, com prejuízo de até R$ 850 milhões. As entidades lembram que um acordo entre o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e a Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Navegação Interior (Abani) permite que o setor privado faça a dragagem sem custo para o poder público.
Paraguai está acima de 2025, mas deve cair
No Pantanal, a régua de Ladário (MS), referência para a hidrovia Paraguai-Paraná, marcava 1,28 metro na manhã desta segunda, segundo a telemetria da ANA, 30 centímetros acima da mesma data de 2025 e quase 2 metros acima de 2024, quando o nível estava negativo, em 0,68 metro abaixo do zero da régua. O rio, que baixava desde o pico de 2,56 metros em 16 de julho, chegou a 1,11 metro em 4 de outubro e subiu com as chuvas do início do mês. Os rios Miranda e Aquidauana, que encheram fora de época, desaguam abaixo de Ladário e reforçam a água em Porto Esperança, onde a mineração embarca a maior parte da carga, segundo o Correio do Estado.
A alta deve ser passageira. Na previsão de 14 de outubro, o SGB projetava 1,02 metro em Ladário em 28 de outubro e 0,91 metro em 11 de novembro, e, em Porto Murtinho, queda de 2,83 metros para 2,57 metros. Abaixo de 1 metro na régua de Ladário, o transporte fica praticamente inviável, com bancos de areia em pelo menos 18 pontos do rio. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) classificou como extrema, em setembro, a seca hidrológica nas áreas que abastecem Ladário e Porto Murtinho, apesar de a chuva na bacia ter ficado 23% acima da média entre março e setembro.
Em 2 de outubro, a Marinha publicou portaria que liga o calado permitido às barcaças ao nível de Ladário, em caráter experimental por um ano: com a régua em 1,85 metro, o limite chega a 9,5 pés para comboios com propulsão azimutal, e, com 2,15 metros, a 10,5 pés. O nível atual está abaixo dos dois patamares. Mesmo com a seca, as mineradoras de Corumbá embarcaram 8,1 milhões de toneladas nos nove primeiros meses do ano, quase tudo pelo rio, recorde para o período, ante 7 milhões em 2025.
O risco maior vem nos próximos meses. O Painel El Niño 2026-2027, que reúne Inmet, Inpe, ANA, Cemaden e SGB, prevê chuva abaixo da média em grande parte do Norte até dezembro, e o Cemaden projeta vazões abaixo da média em novembro em boa parte do Centro-Oeste, inclusive na bacia do Paraguai. Para a vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), senadora Tereza Cristina (PP-MS), a hidrovia parada, como afirmou em agosto, “coloca milhares de caminhões em rodovias precárias” e resulta em “frete mais caro e risco de não escoar a safra”.
Com informações de ANA/SGB (telemetria, estação Itaituba 17730000), ANA/SGB (telemetria, estação Porto Velho 15400000), ANA/SGB (telemetria, estação Ladário 66825000), CNN Brasil, Agência FPA, Campo Grande News, Correio do Estado e Diário Corumbaense.



