Rio Paraná sobe 2,4 m e tira gado de fazendas em MS; usina de Rosana solta 9 vezes mais água que em 2025
Vazão em Porto São José chega a quase o triplo de um ano atrás, e Batayporã estuda decretar emergência; na Argentina, Goya corre para tirar 11 mil cabeças das ilhas antes do pico de sexta.

A cheia do rio Paraná obrigou pecuaristas de Batayporã, no leste de Mato Grosso do Sul, a tirar o gado de fazendas alagadas na região de Porto São José nos últimos dias. Pela telemetria da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), consultada pelo Campo em Pauta, o rio subiu 2,42 metros em Porto São José entre a noite de 4 de outubro e o domingo (18), quando chegou a 5,01 metros. Às 7h desta terça-feira (20), a régua ainda marcava 4,45 metros, com vazão de 11,8 mil metros cúbicos por segundo, quase o triplo dos cerca de 4 mil m³/s de um ano antes, quando o nível estava em 1,1 metro.
Segundo o prefeito de Batayporã, Germino Roz Silva (PSDB), parte dos animais está sendo levada para áreas mais altas, e parte está sendo vendida antes da hora. “Por conta da cheia, os produtores estão vendendo um gado que ainda não estava pronto e tanto eles quanto a prefeitura sofrem perdas porque o valor do gado fica muito abaixo do previsto”, disse ao Correio do Estado. Ao Campo Grande News, o prefeito afirmou que o município recebeu mais de 600 milímetros de chuva entre setembro e outubro e que a experiência das enchentes de 2023 levou os pecuaristas a antecipar a retirada dos rebanhos.
Além das fazendas à beira do Paraná, a água alagou propriedades às margens do rio Baía, afluente represado pela cheia, e nas várzeas do rio Ivinhema. A comunidade rural de Perdizes, com cerca de 80 famílias, está isolada: o aterro do acesso por Batayporã foi levado pela enxurrada, e a estrada por Taquarussu segue coberta pela água. A Defesa Civil municipal prepara um relatório técnico que pode embasar um decreto de situação de emergência. Até segunda-feira (19), não havia famílias desabrigadas, segundo a prefeitura.
De onde vem a água
Moradores e pescadores atribuíram a cheia à usina Engenheiro Sérgio Motta, a Porto Primavera, logo acima de Batayporã. Os dados diários do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) mostram que a usina não abriu o vertedouro em nenhum dia de outubro e que a vazão liberada ficou entre 4,9 mil e 7,3 mil m³/s, com 6,6 mil m³/s na segunda-feira, ante 4 mil m³/s na mesma data de 2025. À reportagem do JD1 Notícias, a assessoria da usina disse que a operação estava dentro da normalidade.
O salto maior vem do rio Paranapanema, que deságua no Paraná entre a barragem de Porto Primavera e Porto São José. A usina de Rosana, operada pela CTG Brasil, verteu água todos os dias de outubro, e o volume pelo vertedouro passou de 1,3 mil m³/s no dia 1º para 5,4 mil m³/s no domingo, segundo o ONS. Na segunda-feira, Rosana liberou 5,8 mil m³/s, nove vezes os 640 m³/s da mesma data de 2025. Pelas contas do Campo em Pauta, as duas usinas somaram 12,4 mil m³/s na segunda, quase toda a água medida em Porto São José. Moradores relataram ao JD1 a abertura de comportas em Rosana; a CTG não havia respondido ao site.
A água extra é da chuva. Entre 1º de setembro e 14 de outubro, as estações do Cemtec e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) registraram 459,2 mm em Dourados, 422,4 mm em Ivinhema e 373 mm em Anaurilândia, vizinha de Batayporã, segundo levantamento da Aprosoja/MS. O boletim de sexta-feira (16) do Instituto Nacional del Agua (INA), da Argentina, atribuiu a nova onda de cheia do Paranapanema às chuvas abundantes nas bacias baixa e média do rio na segunda semana de outubro.
No interior do estado, o boletim do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) de segunda-feira mostrou o rio Dourados a 4,23 metros, em Dourados, acima da cota de alerta de 4 metros, e o rio Pardo a 6,09 metros na estação Fazenda Buriti, em Bataguassu, depois de subir 29 centímetros em um dia, a 21 centímetros da cota de alerta. Na leitura das 7h desta terça, pela telemetria da ANA, o Dourados baixou a 3,74 metros e voltou para baixo da cota de alerta, enquanto o Pardo subiu a 6,13 metros.
Do lado argentino
A cheia segue rio abaixo. Em Itaipu, a vazão liberada chegou a 23,4 mil m³/s na segunda-feira, 13 mil deles pelo vertedouro, mais que o triplo dos 7,4 mil m³/s da mesma data de 2025, segundo o ONS. O INA registrou em Guaíra, em 13 de outubro, um pico de 20,7 mil m³/s, semelhante aos do El Niño de 2015/2016, e prevê o rio acima do normal para a época em Santa Fé e Paraná, na Argentina, no fim do mês.
Nas ilhas em frente a Goya, na província de Corrientes, os pecuaristas tentam tirar o restante do gado antes de sexta-feira (23), quando esperam o pico da cheia, com o rio a 5,70 metros. Segundo o presidente da Sociedad Rural de Goya, Santiago Decotto, entre 60% e 70% dos animais já foram levados para terra firme, e restam cerca de 11 mil cabeças. Das 60 mil cabeças nas ilhas do Paraná em Corrientes, 37,4 mil estão em Goya, disse ele ao jornal La Nación. O Senasa e a polícia provincial liberaram a saída dos animais antes da papelada, e quem vende às pressas aceita preços de 10% a 20% menores, de acordo com Decotto.
Mais ao sul, em San Javier, na província de Santa Fé, os criadores se preparam para retirar cerca de 15 mil cabeças das ilhas, e 1,5 mil já saíram a nado, segundo a Sociedad Rural de San Javier. O gargalo são as embarcações. “O maior inconveniente é que não há muitas barcaças. As poucas que estão funcionando, entre 5 e 7, conforme a semana, pertencem a donos de gado que, logicamente, priorizam a sua situação e só depois as colocam à disposição de terceiros”, disse o presidente da entidade, Robert Fernández, em tradução livre.
Mais chuva na semana
A chuva volta nos próximos dias. O Inmet tem aviso de tempestade para os 79 municípios sul-mato-grossenses na quinta-feira (22) e na sexta-feira (23), Batayporã incluída, e o Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima de MS (Cemtec) prevê de 50 a 250 mm no estado entre 15 e 27 de outubro, com os maiores volumes no sul, no sudoeste, no centro e no sudeste. No estado do Paraná, cujos rios Ivaí e Piquiri desaguam no Paraná antes de Itaipu, a MetSul prevê de 100 a 200 mm na semana em vários municípios. Para o prefeito Germino, só um período mais longo sem chuva vai permitir recuperar estradas, aterros e cabeceiras de pontes, enquanto os pecuaristas seguem tirando o gado das áreas baixas para não repetir as perdas de 2023.
Com informações de ANA/Rio Paranapanema Energia (telemetria, estação Porto São José 64575001), ANA/Imasul (telemetria, estação Dourados 64608900), ANA/SGB (telemetria, estação Fazenda Buriti 63970000), ONS (dados hidrológicos diários dos reservatórios, 2026), ONS (dados hidrológicos diários dos reservatórios, 2025), INA/SMN (Boletín de Perspectivas Hidroclimáticas, 16/10/2026), Inmet (avisos meteorológicos), Campo Grande News, Correio do Estado, A Gazeta de Dourados, JD1 Notícias, Aprosoja/MS, La Nación, Canal Rural e MetSul.



