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MT importa 172 kg de adubo por hectare, o menor da série iniciada em 2018; nitrogênio cai 29% antes da safrinha

Pelas contas do Campo em Pauta, o estado paga 14,8% mais em dólar por hectare para trazer menos, e Santos passa a receber 61% do adubo mato-grossense. Com a Ptax 6,5% acima da de sexta, compras do fim do ano custariam R$ 152 milhões a mais.

Por Redação Campo em Pauta ·

Guindastes azuis de um terminal portuário à beira do canal, com pilhas de contêineres e um navio atracado, sob céu nublado e morros ao fundo
Terminais do Porto de Santos (SP), em 2019. Foto: Enio Prado (CC BY-SA 2.0)

O Brasil está trazendo de fora menos adubo para cada hectare que cultiva, e Mato Grosso, maior comprador do país, chegou ao menor volume da série. De janeiro a setembro de 2026, importadores do estado registraram 3,98 milhões de toneladas de fertilizantes no Comex Stat, sistema de comércio exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Pelas contas do Campo em Pauta, dividido pelos 23,17 milhões de hectares de lavouras que o IBGE estima para o estado neste ano, o volume dá 172 quilos por hectare, 9,5% menos que os 190 quilos de 2025 e o menor número da série usada no cálculo, iniciada em 2018.

O recuo mais forte é o do nitrogênio, base da adubação do milho safrinha. Os adubos nitrogenados importados por Mato Grosso equivalem a 40,6 quilos por hectare, ante 57,1 quilos um ano antes, queda de 28,9% e o menor nível da série. Os fosfatados caíram 12%, para 45,5 quilos por hectare. Só o potássio subiu, 5,5%, para 85,6 quilos. O dado do Comex Stat mostra o estado do importador, não o lugar onde o adubo é aplicado, e não considera estoques nem a produção nacional.

O produtor paga mais para levar menos. O gasto dos importadores mato-grossenses com adubo equivale a US$ 58,80 por hectare, 14,8% acima dos US$ 51,20 do mesmo período de 2025, porque a tonelada ficou mais cara.

O país no menor nível desde 2018

O movimento é nacional. Levantamento do Canal Rural que cruza o Comex Stat com a área plantada do IBGE, publicado na terça-feira (27), calcula que o nitrogênio importado de janeiro a setembro equivale a 28,5 quilos por hectare, 22,5% menos que os 36,8 quilos de 2025, e o fósforo, a 19,3 quilos, recuo de 10,5%. São os menores volumes desde 2018 e ficam cerca de um quarto abaixo da média dos oito anos anteriores. O potássio é a exceção. A área plantada do país subiu 1,4%, para 99,1 milhões de hectares, segundo o IBGE.

Na safra que está sendo plantada, o levantamento mostra que, de julho a setembro, quando se fazem as compras para o plantio de verão, o país importou 47,2 quilos de nutrientes por hectare de grãos previsto pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para o ciclo 2026/27, quase 20% menos que no início da safra passada e o menor volume em quatro ciclos, com a área 2,3% maior, em 85,4 milhões de hectares. Em outro cálculo com dados do MDIC até a terceira semana de outubro, o Canal Rural projeta que o Brasil feche 2026 com cerca de 40,2 milhões de toneladas de adubo importado, entre 12% e 14% menos que o recorde de 45,5 milhões de toneladas de 2025.

A Conab já trata o corte como risco para a próxima colheita. No Boletim Logístico de outubro, divulgado na terça, a superintendência de Mato Grosso registrou a redução na importação de fertilizantes para o estado por causa dos preços altos e avaliou que o produtor “não necessariamente reduzirá a sua área plantada, mas certamente realizará um corte nos investimentos”, o que “poderá eventualmente reduzir o potencial produtivo das lavouras” e gerar menos grãos para escoar no primeiro semestre de 2027. A consultoria Veeries, citada pela Agrolink, também espera adubação média menor na soja 2026/27, com custo alto e menos fosfato disponível, e vê nisso um risco adicional para a safra, embora a produtividade dependa também do clima e das reservas de nutrientes no solo.

Santos vira a porta do adubo de MT

Os dados do Comex Stat mostram também uma mudança de rota. De janeiro a setembro, 2,44 milhões de toneladas do adubo importado por Mato Grosso foram desembaraçadas no Porto de Santos (SP), 46,9% mais que um ano antes; o porto paulista passou de 38,9% para 61,3% do volume do estado. As unidades da Receita no Arco Norte (Santarém, Belém, Manaus e São Luís) caíram de 48,5% para 32,4%, e só Santarém (PA) recuou 44,1%, para 766,6 mil toneladas. Por Paranaguá (PR), Mato Grosso trouxe 155,4 mil toneladas, 65% menos. Em Goiás, Santos passou de 41,4% para 52,3% das compras, e Paranaguá caiu de 43,7% para 29%.

No país, Santos recebeu 6,57 milhões de toneladas até setembro, 11,5% mais, e passou Paranaguá como principal entrada de fertilizantes, com 23,1% do total. O porto paranaense caiu 27,2%, para 6,25 milhões de toneladas, e sua fatia foi de 25,4% para 21,9%. O Canal Rural já previa que a participação de Paranaguá, de 24% em 2025, cairia para 22% neste ano.

O dólar da reeleição chega à safrinha

A queda nas compras encontra o câmbio em outro patamar depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no domingo (25). A Ptax, taxa do Banco Central usada nos contratos do agro, fechou a R$ 5,5007 na segunda-feira (26), 9,2% acima dos R$ 5,0377 de sexta-feira (23), e a R$ 5,3346 na terça. Na parcial das 12h05 desta quarta-feira (28), estava em R$ 5,3627, ainda 6,5% acima de sexta. Como mostrou o Campo em Pauta na segunda, só a alta do dólar encareceu a tonelada de ureia em mais de R$ 200 nos portos.

A conta pesa no adubo que falta comprar. De outubro a dezembro de 2025, importadores de Mato Grosso trouxeram 1,63 milhão de toneladas de fertilizantes, 72% delas nitrogenados, por US$ 466,8 milhões. Pelas contas do Campo em Pauta, se o estado repetir neste trimestre o mesmo gasto em dólar, a diferença entre a Ptax de sexta e a desta quarta acrescenta R$ 151,7 milhões à fatura. A troca já estava pior antes do câmbio: no fim da semana passada, o produtor de milho precisava de cerca de 75 sacas para comprar uma tonelada de MAP, oito a mais que um ano antes, segundo a StoneX, com base no milho da bolsa de Chicago e no adubo nos portos brasileiros.

Com informações de Canal Rural, Comex Stat (MDIC), IBGE/SIDRA (LSPA, tabela 6588), Conab (Boletim Logístico de outubro), Banco Central (Ptax), Globo Rural, CNN Brasil e Agrolink.

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