Área de soja com semente não certificada triplica e chega a 9,6 milhões de ha; no Centro-Oeste, vai a 2,8 milhões
Pelos dados da CropLife, a área com semente certificada na região caiu 6,3% em duas safras, enquanto a lavoura cresceu 5,6%. Sementeiros calculam perda de quatro sacas por hectare e de R$ 590 milhões em royalties; a Aprosoja pede separar o pirata de quem salva semente.

A soja plantada com semente não certificada, a salva pelo próprio produtor ou a pirata, passou de 532 mil para 2,83 milhões de hectares no Centro-Oeste em quatro safras, 5,3 vezes mais, pelas contas do Campo em Pauta com o painel CropData, da CropLife Brasil, entidade que reúne as empresas de sementes, biotecnologia e defensivos. Na safra 2025/26, essa área equivale a 12,5% da soja de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Distrito Federal, ante 2,8% em 2021/22. A região responde por 29,4% de toda a área não certificada do país.
No Brasil, a área com semente não certificada triplicou, de 3,1 milhões para 9,6 milhões de hectares, e chegou a 19,8% dos 48,6 milhões de hectares de soja, contra 7,4% quatro safras antes, segundo o boletim divulgado pela CropLife na terça-feira (27). “A série histórica também traz outro alerta: o avanço no uso de sementes não certificadas”, diz a entidade, que fala em “ponto de reflexão setorial”.
A CropLife não separa a semente salva, que a lei permite guardar para uso próprio, da semente pirata, vendida sem registro. O painel calcula a área não certificada pela diferença entre a área de soja estimada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e a área plantada com semente certificada.
O recorte por estado
Por estado, o painel mostra 1,5 milhão de hectares de soja sem semente certificada em Mato Grosso na safra 2025/26, cinco vezes os 301 mil hectares de 2021/22 e 11,6% dos 13 milhões de hectares do estado. Em Mato Grosso do Sul, a área foi de 1,19 milhão para 2,06 milhões de hectares, 47% da soja sul-mato-grossense. Em Goiás, a conta dá negativa (menos 772 mil hectares), porque a área com semente certificada registrada no estado supera a plantada, sinal de que parte dessa semente é usada fora dele; por isso, o recorte estadual deve ser lido com cautela, e o regional é mais estável.
Na soma da região, a área com semente certificada caiu de 21,1 milhões de hectares em 2023/24 para 19,8 milhões em 2025/26, recuo de 6,3%, enquanto a soja plantada cresceu 5,6%, para 22,6 milhões de hectares. No país, a biotecnologia que combina resistência a insetos e tolerância a herbicidas ocupou 38 milhões de hectares, 78% da área, ante 40,6 milhões em 2023/24, queda que a CropLife associa ao avanço da semente não certificada.
Produtividade, royalties e doenças
Levantamento da Céleres Consultoria para a Associação Brasileira dos Produtores de Sementes de Soja (Abrass), que inclui na conta a semente salva vendida de forma irregular, estima 27% da área de soja 2025/26 com semente não certificada, cerca de 13 milhões de hectares. Segundo a Abrass, pesquisas indicam perda média de quatro sacas por hectare com essas sementes, o que daria 2,8 milhões de toneladas a menos na safra, e o setor deixaria de vender 16,4 milhões de sacas de semente certificada, perda de mais de R$ 8 bilhões. Só em royalties de genética, a entidade calcula R$ 590 milhões a menos para a pesquisa de novas cultivares.
Pelas contas do Campo em Pauta, se a perda média de quatro sacas apontada pela Céleres valesse para toda a área não certificada do Centro-Oeste, seriam 11,3 milhões de sacas, ou 679 mil toneladas de soja a menos. A conta é uma aproximação: a perda varia com a qualidade da semente guardada, e parte dessa área é semente salva dentro da lei.
O risco sanitário aparece em pesquisa. Estudo da Universidade Federal de Pelotas e da Universidade Federal de Santa Maria publicado na Revista Agrarian, da Universidade Federal da Grande Dourados (MS), encontrou o fungo Cercospora kikuchii, que causa doenças de fim de ciclo e desfolha precoce, em 33% das sementes salvas analisadas, ante 6,5% nas comerciais, e concluiu que as salvas têm menor potencial fisiológico e alta incidência de patógenos.
O avanço da semente própria acompanha o aperto no caixa. A consultoria Veeries, citada pela Agrolink em outubro, aponta que o uso de sementes salvas avança em quase todas as regiões produtoras na safra 2026/27, ao lado de adubação menor por causa do custo. Em 2022/23, segundo dados da consultoria Blink apresentados no encontro nacional da Abrass, Mato Grosso já usava 16% de sementes salvas; em 2023/24, a pirata ocupava 11% da soja de Mato Grosso do Sul, mesmo índice nacional, segundo estudo da CropLife com a Céleres.
Lei de cultivares em disputa
A Abrass defende o Projeto de Lei 1.702/2019, em tramitação na Câmara, que prevê cobrar royalties de genética também sobre a semente salva. “A aprovação e regulamentação dessa lei trarão mais segurança jurídica ao pesquisador”, disse o diretor institucional da entidade, Gladir Tomazelli, à revista SeedNews. “Desde a introdução das chamadas sementes transgênicas, a área de soja e algodão cresceu 5% ao ano, enquanto a produção avançou 6,8%. E essa diferença vem da produtividade fornecida pela tecnologia”, afirmou o gerente executivo da CropLife, Renato Gomides.
Do lado do produtor, a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil) defende remunerar o germoplasma, mas sem confundir quem guarda semente com quem pirateia. Em 2024, no encontro nacional dos produtores de sementes, o diretor-executivo da entidade, Fabrício Rosa, disse que remunerar o germoplasma é consenso entre os produtores há anos e defendeu penas mais severas para a pirataria, justamente para diferenciar o pirateiro de quem salva a própria semente, segundo o Canal Rural.
Com informações de CropLife Brasil, CropLife Brasil (painel CropData), Globo Rural, Exame, SeedNews, Revista Agrarian (UFGD), Agrolink, Canal Rural e Campo Grande News.





