Mina de R$ 5 bi no mar de Sergipe daria menos potássio do que MT importou em 2025; tonelada sobe 16% no estado
Pelas contas do Campo em Pauta, MT, GO e MS gastaram US$ 844,8 milhões com cloreto de potássio até setembro, 22,2% mais que em 2025, e US$ 112,5 milhões dessa conta vêm só da alta do preço. A Rússia perde espaço para o Turcomenistão, e o projeto sergipano ainda não tem reserva comprovada.

O projeto que pretende tirar cloreto de potássio do subsolo do mar de Sergipe, com investimento estimado em mais de R$ 5 bilhões, produziria até 2 milhões de toneladas por ano, menos do que só os importadores de Mato Grosso trouxeram de fora em 2025. Pelas contas do Campo em Pauta com dados do Comex Stat, sistema de comércio exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), empresas sediadas no estado registraram 2,09 milhões de toneladas de cloreto de potássio importado no ano passado. Somados Goiás e Mato Grosso do Sul, foram 2,72 milhões de toneladas, e a produção prevista em Sergipe cobriria 73,5% disso.
O empreendimento é da mineradora South Atlantic Potash, e os detalhes foram divulgados pelo governo de Sergipe na terça-feira (27), segundo a CNN Brasil. A empresa diz ter identificado nove alvos exploratórios na Bacia de Sergipe-Alagoas, cerca de 2,5 quilômetros abaixo do leito marinho, numa área com lâmina d'água próxima de 30 metros, e detém cerca de 189 mil hectares autorizados para pesquisa mineral pela Agência Nacional de Mineração (ANM). A estimativa de investimento consta do relatório de gestão de 2025 da Agência Sergipe de Desenvolvimento (Desenvolve-SE), estatal que apoia a estruturação do projeto.
A South Atlantic Potash calcula que 2 milhões de toneladas por ano atenderiam cerca de 14% da demanda nacional. A conta é coerente com a balança comercial: o Brasil importou 13,68 milhões de toneladas de cloreto de potássio em 2025, e a produção planejada equivaleria a 14,6% desse volume.
O preço sobe mais que o volume
Enquanto a mina não sai do papel, o potássio que chega ao Centro-Oeste fica mais caro. De janeiro a setembro, importadores de Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul trouxeram 2,47 milhões de toneladas de cloreto de potássio, 6% mais que no mesmo período de 2025, e pagaram US$ 844,8 milhões, alta de 22,2%. Os três estados respondem por 22,8% do volume comprado pelo país.
Em Mato Grosso, o volume subiu 8,7%, para 1,94 milhão de toneladas, e a conta cresceu 26,1%, para US$ 664,8 milhões. A tonelada passou de US$ 294,82 para US$ 341,95 no preço FOB, sem frete e seguro, alta de 16%. Em Goiás, o volume caiu 4,4%, para 491,7 mil toneladas, mas o gasto subiu 7,8%, para US$ 168,1 milhões, com a tonelada 12,6% mais cara. Mato Grosso do Sul aparece com só 34,3 mil toneladas porque o Comex Stat registra o estado da empresa importadora, não o da lavoura onde o adubo é aplicado.
Pelas contas do Campo em Pauta, se as compras deste ano tivessem saído pelos preços médios pagos por cada estado em 2025, os importadores dos três estados teriam gastado US$ 112,5 milhões a menos. No país, o volume importado até setembro caiu 3,6%, para 10,82 milhões de toneladas, enquanto o valor subiu 9,8%, para US$ 3,7 bilhões, com a tonelada a US$ 342,20, 14% acima de um ano antes.
O cloreto de potássio é o fertilizante mais importado pelas empresas de MT, GO e MS: até setembro, somou 2,43 milhões de toneladas na principal classificação do produto, quase três vezes o segundo colocado, o sulfato de amônio. Na quarta-feira (28), o Campo em Pauta mostrou que o potássio foi o único grupo de fertilizante cuja importação por hectare cresceu em Mato Grosso neste ano, enquanto nitrogênio e fósforo recuaram.
Rússia perde espaço para o Turcomenistão
A origem do produto também mudou. Até setembro, o Canadá respondeu por 39,5% do cloreto de potássio importado pelo Brasil, e a Rússia, por 31,2%, ante 49% no mesmo período do ano passado; o volume russo caiu 38,7%, para 3,38 milhões de toneladas. O Turcomenistão, que havia vendido 70,5 mil toneladas ao Brasil nos nove primeiros meses de 2025, passou a 1,83 milhão de toneladas, 16,9% do total. Israel ficou com 8,1%. Nas compras dos importadores de MT, GO e MS, o Canadá tem 47,6%, a Rússia, 26,5%, Israel, 11,1%, e o Turcomenistão, 9,9%.
Em apresentação na Câmara dos Deputados em setembro de 2025, o Ministério da Agricultura afirmou que o Brasil é “altamente dependente de importações de potássio de países como Canadá, Rússia e Belarus” e citou o projeto de Autazes (AM) entre os mais relevantes para a produção nacional de potássicos. A meta do Plano Nacional de Fertilizantes é reduzir de 85% para 50% a dependência externa de adubos até 2050. Em Sergipe, a mina de Taquari-Vassouras, em Rosário do Catete, passou da Mosaic para a VL Mineração no ano passado, num negócio de US$ 27 milhões em dinheiro, segundo o site Mining Technology.
Sem reserva comprovada nem data
O projeto no mar ainda está em fase de avaliação técnica conceitual. Os nove alvos não são reservas minerais comprovadas, e não há decisão final de investimento nem data para o início da produção, segundo as informações divulgadas. A empresa precisa fazer novas sondagens no mar para dimensionar os depósitos, estimar formalmente os recursos e avaliar a viabilidade econômica, além de concluir estudos de pré-viabilidade e viabilidade, engenharia, licenciamento ambiental e captação de recursos.
A técnica prevista é a lavra por dissolução: poços perfurados até as camadas de sal recebem água, que dissolve o minério e volta à superfície como salmoura. O líquido seria levado a uma unidade em terra, onde a evaporação e a cristalização separariam o cloreto de potássio; o cloreto de sódio poderia ser vendido como coproduto. O método dispensa barragens de rejeito, mas o descarte da salmoura residual no mar terá de passar pelo licenciamento. A empresa diz usar dados de mais de 200 poços antigos e levantamentos sísmicos feitos pela indústria de petróleo e gás na região.
Com informações de CNN Brasil, Comex Stat (MDIC), Comex Stat (MDIC), tabela de países, Ministério da Agricultura (apresentação na Câmara) e Mining Technology.





