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Cascudinho-da-soja ameaça lavouras do norte de MS, onde o plantio mal começou, e pode exigir replantio

Besouro de 5 mm corta plântulas até 25 dias após a emergência; Aprosoja-MS pede monitoramento desde o primeiro dia, e o Agrofit tem só 2 produtos registrados para tratar sementes.

Por Redação Campo em Pauta ·

Plantas jovens de soja, com as primeiras folhas trifolioladas, crescendo entre restos de palha sobre solo úmido
Soja no início do ciclo, cerca de um mês após a semeadura, em lavoura de plantio direto sobre palhada. Foto: Maggilautaro (Domínio público)

O cascudinho-da-soja (Myochrous armatus), besouro de cerca de 5 milímetros que corta as plantas recém-nascidas, voltou a preocupar os produtores de Mato Grosso do Sul no início da safra 2026/27. Em informativo técnico divulgado nesta semana, a Associação dos Produtores de Soja do estado (Aprosoja-MS) alertou que ataques severos podem matar a soja e obrigar o replantio, e recomendou vistoriar as lavouras desde a emergência.

“Isso incomoda muito todo mundo, há alguns anos. Se não cuidar, destrói tudo, e é muito difícil seu controle”, afirmou o diretor da Aprosoja-MS Eduardo Introvini, produtor no norte do estado, em texto divulgado pela associação.

Segundo a Aprosoja-MS, a praga foi detectada no estado na safra 2017/18, em Coxim e Sonora, no norte. Hoje, a ocorrência é relatada principalmente no centro-norte, com registros também no sul. Na safra 2022/23, pesquisadores da CropSolutions, empresa de pesquisa de São Gabriel do Oeste, relataram em artigo na Revista Cultivar ataques severos em áreas que até então tinham pouca incidência, como Campo Grande, Chapadão do Sul, Sidrolândia, Bandeirantes, Camapuã, Jaraguari e Rio Negro. Em Mato Grosso, o inseto aparece no sul e no leste do estado.

O adulto é preto-fosco, às vezes acinzentado ou marrom por causa da terra grudada no corpo, voa pouco e se finge de morto quando é perturbado. As larvas vivem no solo e se alimentam de matéria orgânica e raízes. O estrago vem dos adultos, que roem cotilédones, hastes e pecíolos das plântulas de soja.

Os sinais são plântulas sem o ponteiro, haste principal cortada, folíolos pendurados e folhas inteiras caídas no chão, que servem de abrigo ao inseto. Os ataques se concentram da emergência até o estádio V5, cerca de 25 dias depois, e costumam formar reboleiras espalhadas de forma irregular pela lavoura. Na safra 2023/24, as perdas relatadas chegaram a 30% em áreas infestadas, segundo reportagem da Revista Cultivar com a entomologista Andressa Lima de Brida, pesquisadora da Fundação MS.

Por que o risco cresce agora

O ciclo do cascudinho acompanha a chuva. No período seco, o inseto fica no solo, na fase de pupa, por cerca de sete meses. Os adultos voltam a aparecer com o início das chuvas, no momento em que a soja está emergindo, segundo o artigo dos pesquisadores da CropSolutions. Durante o dia, eles se escondem na palhada e sob torrões, o que os protege das pulverizações. Na safra 2022/23, a maior incidência foi registrada nos sistemas soja/braquiária e soja/milho, que deixam mais palha sobre o solo.

O calendário deste ano pesa contra o norte do estado. Pelo levantamento do Siga-MS, sistema de monitoramento da Aprosoja-MS, Mato Grosso do Sul tinha 26,6% da soja semeada até 9 de outubro. No sul, o índice era de 35,7%; no centro, de 17,9%; no norte, onde a chuva de setembro ficou entre 0 e 80 milímetros, abaixo de 5%. Ou seja, a maior parte da soja da região onde a praga é mais comum ainda vai emergir nas próximas semanas, justamente a fase de maior estrago.

O que fazer

A Aprosoja-MS recomenda monitorar as áreas pelo Manejo Integrado de Pragas (MIP), com o pano de batida logo após a emergência. O manejo começa no tratamento de sementes com inseticidas registrados para a praga. Se houver novas infestações, entram as aplicações na planta, com produtos de choque dos grupos fenilpirazóis, organofosforados e neonicotinoides, sempre com rotação de modos de ação para evitar resistência. A associação também orienta uma dessecação pré-semeadura bem-feita para eliminar plantas que hospedam o inseto, como amendoim-bravo, braquiária e milho tiguera.

Os pesquisadores ressaltam que o nível de controle, a partir do qual compensa aplicar, ainda está em estudo, e que aplicações noturnas, quando o inseto fica mais exposto, tendem a ser mais eficientes. Em laboratório, fungos e bactérias usados como bioinseticidas, como Beauveria bassiana, Metarhizium anisopliae e Bacillus thuringiensis, também mataram adultos da praga.

Consulta do Campo em Pauta à base aberta do Agrofit, sistema do Ministério da Agricultura atualizado nesta sexta-feira (16), encontrou oito registros de inseticidas para o cascudinho na soja. Só dois são para tratamento de sementes, ambos à base de clotianidina, um neonicotinoide. Os demais são de aplicação na planta, com beta-ciflutrina, profenofós, acefato com bifentrina, bifentrina com lambda-cialotrina e cipermetrina com profenofós. Não há produto à base de fipronil registrado para o cascudinho: o ingrediente tem registro na soja para o torrãozinho (Aracanthus mourei), besouro de outra família com o qual o cascudinho é confundido com frequência.

“Os primeiros dias de desenvolvimento da soja são fundamentais para a formação de um estande adequado. Por isso, o produtor precisa monitorar a lavoura desde a emergência, identificando possíveis sinais de ataque e buscando orientação técnica para definir as medidas de manejo”, afirmou o analista técnico da Aprosoja-MS Lucas Santana.

Com informações de Aprosoja-MS, Aprosoja-MS (Informativo Técnico 05/2026), Aprosoja-MS (Siga-MS), Mapa (Agrofit, dados abertos), Revista Cultivar, Revista Cultivar (artigo técnico), Campo Grande News e Mais Soja.

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