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Clima

Pacífico tem a maior anomalia de calor desde 1981; armazéns de MT, MS e GO comportam só 53% da safra

Água na região Niño 3.4 ficou 3,4 °C acima do normal e superou o pico de 2015. MT, MS e GO, com 31% do rebanho bovino do país, entram em novembro com previsão de calor até 2 °C acima da média, e Mato Grosso tem lugar para 61,6 milhões de toneladas de uma safra de 114,2 milhões.

Por Redação Campo em Pauta ·

Armazém de grãos com telhado metálico, secador e elevadores de grãos ao fundo de um pátio de terra vermelha, sob céu nublado
Secador e armazém de grãos em Mato Grosso, em 2012. Foto: Luis Belo (CC BY-SA 3.0)

A temperatura da superfície do Pacífico equatorial na região Niño 3.4, a referência para medir o El Niño, ficou 3,4 °C acima do normal na semana centrada na quarta-feira 21 de outubro, a maior anomalia semanal da série do Centro de Previsão Climática (CPC) da NOAA, a agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos, iniciada em 1981. A água chegou a 30,1 °C. O recorde anterior era de 3 °C acima do normal, em 18 de novembro de 2015. No El Niño de 1997/98, o pico semanal foi de 2,3 °C; no de 1982/83, de 2,6 °C; e no de 2023/24, de 2,1 °C, todos pela mesma base de comparação, a média de 1991 a 2020.

O aquecimento não parou de subir desde o fim do inverno. Pelos dados semanais do CPC, a anomalia estava em 2,8 °C no início de setembro, chegou a 3 °C em meados do mês, foi a 3,2 °C no fim de setembro e a 3,3 °C nas duas primeiras semanas de outubro. Nos quatro episódios anteriores citados, o pico semanal veio entre 18 de novembro e 29 de dezembro, o que indica que o máximo deste ano ainda pode estar à frente. No índice trimestral usado oficialmente pela NOAA para classificar o fenômeno, o ONI, o trimestre julho-setembro fechou em 2,16 °C. Os índices usam métodos diferentes e não são diretamente comparáveis.

Calor no pasto

Para a pecuária do Centro-Oeste, o efeito mais imediato é o calor. A previsão climática do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) para novembro indica temperaturas acima da média em todo o país, com os maiores desvios no Centro-Oeste e no Sudeste: até 2 °C no noroeste de Mato Grosso e em grande parte de Mato Grosso do Sul, e até 1,5 °C no restante da região. Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul somam 72,1 milhões de cabeças de gado, 30,8% do rebanho brasileiro de 234,3 milhões, segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal de 2025, do IBGE: são 31,6 milhões em Mato Grosso, 22,5 milhões em Goiás e 17,9 milhões em Mato Grosso do Sul.

Segundo a meteorologia do Canal Rural, em reportagem do Giro do Boi, os acumulados de chuva em Mato Grosso e Goiás representam metade dos volumes esperados para o período, o que atrasa a rebrota do capim, e cidades com grandes rebanhos, como Cáceres (MT) e São Félix do Xingu (PA), registram máximas de 40 °C. “O El Niño está deixando a chuva abaixo da média e a temperatura acima”, disse o meteorologista do canal. Cáceres tem o maior rebanho de Mato Grosso e o quarto do país, com 1,41 milhão de cabeças, e São Félix do Xingu, o maior do Brasil, com 2,73 milhões, pelos dados do IBGE.

O calor reduz o consumo de forragem e o ganho de peso, e a oscilação brusca de temperatura favorece doenças respiratórias nos lotes mais jovens, segundo a reportagem. As recomendações para o período são garantir sombra e água limpa à vontade, reforçar a suplementação no cocho e escalonar a terminação para não sobrecarregar os piquetes. O mapa do Inmet não é igual em toda a região: em Mato Grosso do Sul, onde o sudoeste deve ter chuva acima da média, a continuidade das chuvas pode favorecer a manutenção das pastagens, segundo o instituto, enquanto o noroeste de Mato Grosso, o norte de Goiás e o Distrito Federal devem ter chuva abaixo do normal.

Silo para metade da safra

A outra ponta do risco está depois da colheita. Pela Pesquisa de Estoques do IBGE, a capacidade útil de armazéns e silos para grãos a granel em Mato Grosso era de 61,6 milhões de toneladas no segundo semestre de 2025, informada por 1.707 estabelecimentos. Goiás tinha 20,7 milhões de toneladas e Mato Grosso do Sul, 14,3 milhões. O 1º levantamento da safra 2026/27 da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta 114,2 milhões de toneladas de grãos em Mato Grosso, 35,9 milhões em Goiás e 30,6 milhões em Mato Grosso do Sul.

Pelas contas do Campo em Pauta, a capacidade estática equivale a 53,9% da safra prevista em Mato Grosso, 57,7% em Goiás e 46,6% em Mato Grosso do Sul. Nos três estados, há lugar para 96,6 milhões de toneladas, 53,4% dos 180,8 milhões previstos; a diferença é de 84,2 milhões de toneladas. Só em Mato Grosso faltariam 52,6 milhões. A média nacional é de 57,3%: 210,5 milhões de toneladas de capacidade para uma safra de 367,1 milhões. A conta é uma fotografia, porque soja e milho segunda safra são colhidos em épocas diferentes e parte dos grãos sai direto para a exportação, mas mostra o aperto na janela de colheita. A capacidade cresceu pouco: de 60,3 milhões para 61,6 milhões de toneladas em Mato Grosso entre o primeiro e o segundo semestre de 2025, alta de 2,2%; em Goiás, 1,2%; em Mato Grosso do Sul, 4,3%.

Com o El Niño, o problema muda de natureza conforme a região. No Sul, onde o fenômeno traz mais chuva, a tendência é de colheita com grãos mais úmidos e pressão maior sobre secadores. No Centro-Norte, estiagens mais longas também podem trazer problemas à produção, e a colheita concentrada em períodos curtos pressiona a estrutura de secagem e de armazenagem, segundo o portal Mais Soja. Dentro do silo, calor e umidade favorecem a deterioração: quando o ar úmido encontra superfícies mais frias, a água condensa e pinga sobre a massa de grãos.

A própria Conab já embute queda de produtividade no Centro-Oeste: a média dos grãos na região deve cair 1,8% na safra 2026/27, com recuo de 3,3% em Mato Grosso e de 4,5% em Mato Grosso do Sul, enquanto Goiás sobe 5,8%. Como mostrou o Campo em Pauta, um estudo da Serasa Experian estima que um El Niño forte como o de 2023/24 tiraria 17,6 milhões de toneladas da soja do país, quase 80% delas em Mato Grosso e Goiás.

Com informações de NOAA/CPC (índices semanais do Niño, base 1991-2020), NOAA/CPC (Oceanic Niño Index), NOAA/CPC (índices mensais do Niño), Inmet (Novembro: como será o clima no Brasil), IBGE (Pesquisa da Pecuária Municipal 2025, tabela 3939, bovinos), IBGE (Pesquisa de Estoques, tabela 259, capacidade útil a granel), Conab (1º levantamento da safra 2026/27), Giro do Boi/Canal Rural (El Niño e pastagens) e Mais Soja (El Niño e armazenagem de grãos).

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