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El Niño tem 83% de chance de ser o maior desde 1950; bandeira vermelha custaria R$ 67 mi ao ano aos pivôs de GO

Reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste estão em 54,6%, 8,6 pontos acima de um ano atrás, e outubro tem bandeira verde; a Aneel define a de novembro em 30/10. No Norte, a seca já derrubou em 42% a produtividade da soja de Roraima e travou o escoamento pelo rio Branco.

Por Redação Campo em Pauta ·

Pivô central em funcionamento sobre lavoura verde de feijão, com solo vermelho em primeiro plano e serra ao fundo
Pivô central irriga lavoura de feijão em Paracatu (MG), em setembro de 2011. Foto: Tiago Firmino/Panoramio (CC BY 3.0)

O El Niño de 2026 tem 83% de chance de superar, entre outubro e dezembro, todos os episódios registrados desde 1950, segundo o boletim mensal do Centro de Previsão Climática (CPC) da NOAA, a agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos, divulgado em 8 de outubro. A anomalia da temperatura do mar na região Niño 3.4 chegou a +2,1 °C em setembro, e o órgão vê mais de 83% de probabilidade de um evento forte a muito forte até o trimestre janeiro-março de 2027. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) registrou +2,08 °C na média de setembro, a segunda maior para o mês desde 1950, atrás só de 1997, e +2,4 °C no monitoramento semanal de outubro.

Para o produtor do Centro-Oeste, o fenômeno chega por dois caminhos: a chuva e a conta de luz. O Painel El Niño, que reúne Inmet, Inpe, ANA, Cemaden, SGB, Defesa Civil e Censipam, indica para a primavera maior chance de chuva acima da média no Rio Grande do Sul e em partes de São Paulo e de Mato Grosso do Sul, e abaixo da média no Norte, no Nordeste e em áreas de Mato Grosso, do Tocantins e do norte de Goiás, com temperaturas acima da média em quase todo o país. Já o custo da energia depende de quanta água sobra nos reservatórios quando o calor aumenta o consumo de irrigação, aeração de silos e ventilação de confinamentos.

Reservatórios melhores que em 2025

Por enquanto, a água está a favor. Pelos dados abertos do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), consultados pelo Campo em Pauta, a energia armazenada no subsistema Sudeste/Centro-Oeste, que abastece Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, estava em 54,6% da capacidade na quarta-feira (21), contra 46,0% no mesmo dia de 2025, uma vantagem de 8,6 pontos. O Nordeste subiu de 50,5% para 63,0%. A conta inverte no Norte, de 77,3% para 65,1%, e no Sul, de 92,0% para 80,8%, embora o Sul receba a chuva do El Niño: o Programa Mensal de Operação do ONS para a semana de 3 a 9 de outubro, segundo o site Cenário Energia, projeta afluências de 244% da média de longo termo no Sul e de 128% no Sudeste/Centro-Oeste em outubro, contra 66% no Nordeste e 48% no Norte, depois do setembro mais chuvoso em 17 anos no sistema interligado.

Foi essa água que tirou o adicional da conta. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) anunciou em 25 de setembro que outubro teria bandeira verde, sem custo extra, “com condições de geração favoráveis”, no lugar da amarela que vigorava. A bandeira de novembro será definida em 30 de outubro, pelo calendário da agência. Pela tabela da Aneel, a amarela acrescenta R$ 0,01885 por quilowatt-hora, a vermelha patamar 1, R$ 0,04463, e a vermelha patamar 2, R$ 0,07877, cobrados de todos os consumidores cativos das distribuidoras.

Quanto custa a bandeira num pivô

Pelas contas do Campo em Pauta, a bandeira amarela equivale a R$ 18,85 por megawatt-hora, a vermelha 1, a R$ 44,63, e a vermelha 2, a R$ 78,77, antes de impostos. Num pivô central de 105 hectares com bomba de 150 cv, acompanhado pela Embrapa Milho e Sorgo em lavoura comercial de milho no cerrado de Minas Gerais, o ciclo consumiu 64.355 kWh para aplicar 418 mm de lâmina, ou 613 kWh por hectare. Com bandeira amarela, o ciclo custaria R$ 1.213 a mais; com vermelha 1, R$ 2.872; com vermelha 2, R$ 5.069, ou R$ 48,28 por hectare.

No ano inteiro, a conta cresce. Um estudo publicado na Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental por pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia e da Embrapa Agropecuária Oeste, a partir de pivôs avaliados em Ponta Porã (MS), estimou o consumo dos pivôs do país em 1.928 GWh por ano para 710,5 mil hectares, ou 2.714 kWh por hectare ao ano. Aplicada à área equipada mapeada pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), de 1,92 milhão de hectares em 2022, dos quais 16,3% em Goiás e 8,6% em Mato Grosso, a conta do Campo em Pauta indica cerca de 313 mil hectares de pivôs goianos e 165 mil mato-grossenses. Um ano de bandeira amarela custaria R$ 16,0 milhões a mais aos pivôs de Goiás e R$ 8,4 milhões aos de Mato Grosso; um ano de vermelha 2, R$ 66,9 milhões e R$ 35,3 milhões, ou R$ 213,75 por hectare irrigado.

Goiás é o segundo estado do país em área de pivôs, atrás de Minas Gerais, e Mato Grosso, o sexto, segundo a ANA. A Embrapa lembra que os pivôs são 0,3% dos consumidores rurais e respondem por 17,3% da energia consumida no campo.

Quem compra energia fora da distribuidora já viu o preço subir antes do El Niño. Segundo a Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel), os contratos de longo prazo no mercado livre passaram de R$ 147 para R$ 233 por MWh entre janeiro de 2024 e março de 2026, alta de 59%, e os trimestrais, de R$ 143 para R$ 317, alta de 121%. Nesse patamar, a bandeira vermelha 2 sozinha equivale a um terço do contrato de longo prazo.

Roraima: soja perde 42%

Enquanto o Centro-Sul discute a conta de luz, o Norte já perde safra. Em Roraima, o presidente da Aprosoja-RR, Murilo Ferrari, disse ao Canal Rural que a estiagem começou de forma precoce, entre o fim de junho e o início de julho, e que desde então não houve chuva expressiva; a produtividade da soja colhida caiu 42% em relação ao ano passado. “É uma seca histórica. Nós nunca vivenciamos essa seca tão precoce, que se configurou já no final de junho, começo de julho, e até o momento não tivemos mais chuvas expressivas”, afirmou. O nível baixo do rio Branco impediu neste ano a operação de escoamento da soja por Caracaraí, iniciada em 2025 e usada para exportação, e, segundo o Canal Rural, o rio em Boa Vista se aproxima das menores cotas da série do Serviço Geológico do Brasil.

A seca também chega ao diesel e aos insumos. Segundo Ferrari, a dificuldade de navegação na Amazônia já atrapalha a chegada de embarcações a Manaus, parte da logística passou por Itacoatiara (AM) e o combustível encareceu; fertilizantes, defensivos e sementes da safra 2026/27, cuja compra começa em maio, podem subir se a estiagem persistir. “Se continuar e não chover agora nesses próximos meses, a gente vai, sim, impactar nos preços dos insumos que aqui vêm, fertilizantes, produtos químicos, sementes. E aí a conta vai ser repassada para o produtor”, disse. As chuvas na região costumam voltar entre dezembro e fevereiro, mas a previsão é de volume abaixo da média até dezembro.

A previsão não ajuda. Para o Canal Rural, a meteorologia indica de 20 a 30 mm de chuva em Roraima nos próximos 30 dias e temperaturas de até 40 °C, e o Inmet prevê para este fim de semana sol e máximas de 36 °C a 37 °C em Boa Vista, sem chuva na capital, com uma massa de ar seco e quente sobre Amapá, Pará e centro-norte do Tocantins. No Painel El Niño, Amazônia Legal e Pantanal aparecem com possibilidade de prolongamento da estiagem e maior risco de incêndios na transição para a estação chuvosa.

A ligação com o Centro-Oeste é a logística. A soja de Mato Grosso que desce pela BR-163 depende do Tapajós, que, como mostrou o Campo em Pauta, caiu 69 cm em outubro em Itaituba e já obriga as barcaças a levar 30% menos carga. Um El Niño que seque o Norte enquanto enche os reservatórios do Sudeste alivia a bandeira, mas encarece o frete fluvial, e é essa conta, somada ao calor de 40 °C nos confinamentos de MT e MS, que o produtor terá de fechar na próxima safra. O próximo boletim da NOAA sai em 12 de novembro.

Com informações de NOAA/CPC (ENSO Diagnostic Discussion, 8/10/2026), Inmet (anomalia de setembro), Inmet (evolução das projeções e Painel El Niño), Inmet (previsão para sexta-feira 23 e sábado 24), ONS (dados abertos, energia armazenada diária), Cenário Energia (PMO do ONS), Aneel (bandeira verde em outubro), Aneel (valores das bandeiras), Aneel (calendário de acionamento), ANA (Boletim SNIRH, pivôs centrais 1985-2022), Embrapa Milho e Sorgo (uso de água e energia em pivô), RBEAA/UFU/Embrapa (eficiência energética em pivôs), Agência Infra (estudo da Abraceel), Globo Rural (conteúdo de marca PressWorks), Canal Rural (seca em Roraima), Canal Rural (rio Branco) e Canal Rural (previsão: seca no Norte).

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