El Niño: StoneX vê calor de novembro e dezembro como maior risco à soja do Cerrado; Embrapa lista medidas
Pacífico teve em setembro o 2º maior aquecimento para o mês desde 1950. No Centro-Oeste, a ameaça é a falta de chuva em MT, GO e DF; nota técnica com 163 medidas indica o que o produtor pode fazer.

O maior risco do El Niño para a soja e o milho do Cerrado não está no volume total de chuva da estação, mas na combinação de calor forte e falta de água em novembro e dezembro, justamente na fase de desenvolvimento das lavouras. A avaliação é da consultoria StoneX, no relatório trimestral de perspectivas para commodities divulgado em 8 de outubro, que inclui o Matopiba na mesma faixa de risco.
“O maior risco para os produtores não é apenas a quantidade de chuva prevista para a estação. A preocupação está na ocorrência de períodos prolongados de calor acompanhados por deficiência hídrica, especialmente nas regiões produtoras do Cerrado e do Matopiba”, afirmou a analista de inteligência de mercado da StoneX Carolina Giraldo, segundo o portal Mais Soja. Para o Sul do país, a consultoria prevê chuva acima da média, boa para o início das lavouras, mas com risco de atrapalhar o plantio, a logística e o trânsito de máquinas.
O fenômeno segue ganhando força. Segundo o Inmet, a temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4, no Pacífico central, ficou 2,08 °C acima da média em setembro, a segunda maior anomalia para o mês desde 1950. Só setembro de 1997 foi mais quente, com 2,15 °C. Os dados semanais de outubro indicam que o aquecimento continua. O modelo do Instituto Internacional de Pesquisa para Clima e Sociedade (IRI), citado pelo Inmet, dá 100% de chance de El Niño entre outubro e dezembro e 87% de que ele dure até o trimestre de abril a junho de 2027.
O que muda no Centro-Oeste
Pelo boletim agroclimatológico do Inmet divulgado na terça-feira (13), o trimestre de outubro a dezembro deve ter chuva abaixo da média no centro-norte de Mato Grosso, no norte de Goiás e no Distrito Federal, com déficit de até 100 milímetros no extremo norte mato-grossense. Em Mato Grosso do Sul e no sul de Goiás, a tendência é de chuva acima da média. A temperatura deve ficar acima do normal em toda a região, até 2 °C a mais no norte de Mato Grosso.
Em outubro, segundo o instituto, a combinação de pouca chuva e calor em Mato Grosso pode causar falhas na germinação, emergência desuniforme e necessidade de replantio nas áreas semeadas agora, com quadro semelhante em Goiás e no Distrito Federal. A partir de novembro, a umidade do solo deve se recuperar; em dezembro, o excesso de água pode favorecer doenças fúngicas e limitar as pulverizações. O plantio já está em curso: até 9 de outubro, segundo a Conab, Mato Grosso tinha 25,2% da soja semeada, Mato Grosso do Sul, 25%, e Goiás, 7%.
As medidas da Embrapa
Para atravessar a safra, a Embrapa entregou ao Ministério da Agricultura uma nota técnica com 163 medidas de gestão de risco climático, elaborada por cerca de 50 especialistas no grupo de trabalho sobre o El Niño criado pela pasta, com participação do Inmet. São 14 medidas para todo o setor, 139 específicas por atividade e dez que dependem de políticas públicas. Cada uma traz o risco que combate e o prazo de adoção. Entre as recomendações para quem planta grãos de verão estão:
- Respeitar a umidade do solo: evitar entrar com máquinas quando a umidade do solo não for adequada, para não compactar a terra.
- Aplicar com base na previsão: decidir pulverizações pelo monitoramento da lavoura e pela previsão de curto prazo, evitando aplicar logo antes de chuva ou com vento forte.
- Vigiar o calor: acompanhar a previsão de ondas de calor nas fases críticas da cultura e ajustar a irrigação, onde houver.
- Ajustar o investimento: calibrar adubação e insumos ao potencial produtivo esperado para o clima da safra, sem metas de produtividade incompatíveis com a previsão.
- Escolher cultivares estáveis: priorizar materiais que mantenham produtividade sob estresse, inclusive de ciclo curto e tolerantes a calor e seca.
- Proteger o caixa: usar seguro rural e Proagro, formar reserva financeira e manter estradas internas, energia, drenagem e armazéns em condições de operar.
“Nós já temos um cardápio bastante grande de tecnologias que ajudam a enfrentar o El Niño e eventos climáticos adversos. O desafio agora é fazer com que esse conhecimento chegue ao produtor rural”, disse o coordenador do grupo de trabalho, Bruno Leite, segundo a Agência Gov. Uma das ferramentas da lista, o seguro rural, teve R$ 461,7 milhões da subvenção federal bloqueados pelo governo em junho, segundo a CNN Brasil, e o valor seguia travado no início do plantio, como mostrou o Campo em Pauta.
Entre os produtores, a cautela com o calendário já vinha sendo defendida. “A tendência é de um plantio com mais cautela, reduzindo, por exemplo, a área plantada no início do calendário, quando ainda há pouca umidade. O produtor não vai arriscar plantar com solo seco, chuvas esparsas ou precipitações muito antecipadas”, afirmou o vice-presidente Leste da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT), Diego Dall Asta, ainda em julho, segundo a Revista Cultivar.
Com informações de Mais Soja, Inmet, Inmet (Boletim Agroclimatológico de outubro), Embrapa (Nota Técnica El Niño 2026/2027), Agência Gov, Giro do Boi, Conab (Acompanhamento das Lavouras, 5 a 11/10), CNN Brasil e Revista Cultivar.



