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El Niño faz rio Uruguai passar da cota de evacuação na Argentina, e produtores tiram o gado das ilhas

Cheia atinge Corrientes e Entre Ríos e deve chegar ao Paraná. Simulação aponta soja 11% mais produtiva em anos de El Niño no país vizinho, enquanto o Centro-Oeste teme a seca.

Por Redação Campo em Pauta ·

Quiosque de telhado de palha e passarela com corrimão parcialmente submersos às margens de um rio largo, sob uma árvore
Quiosque e passarela alagados na margem do rio Paraná, na cidade de Paraná (Entre Ríos, Argentina), durante a cheia de julho de 2014. Foto: ANDY ABIR ALAN (CC BY-SA 3.0)

O El Niño começou a pesar sobre o campo no nordeste da Argentina. As chuvas persistentes nas bacias dos rios Uruguai e Paraná, inclusive no Sul do Brasil e na província de Misiones, elevaram o nível das águas, e produtores de Corrientes e Entre Ríos passaram a retirar o gado das ilhas e dos campos baixos, segundo o jornal Clarín.

O rio Uruguai é o caso mais grave. Pelo informe do Instituto Nacional del Agua (INA) desta terça-feira (13), a régua de Paso de los Libres, em Corrientes, na frente de Uruguaiana (RS), marcou 9,28 metros, acima do nível de alerta (7,50 m) e do de evacuação (8,50 m). O instituto prevê que o rio fique acima da cota de evacuação até sexta-feira (16) e acima da de alerta até domingo (18). Em Concordia e em Concepción del Uruguay, em Entre Ríos, o nível também passou do alerta.

No sistema do Paraná, a cheia ainda está a caminho. Em Puerto Iguazú, na tríplice fronteira, a régua subiu 4,35 metros em um dia e chegou a 28,65 m, acima da cota de evacuação, de 28 m. A vazão que chega à represa de Yacyretá, entre Argentina e Paraguai, alcançou 34,1 mil metros cúbicos por segundo. O INA prevê que o Paraná em Corrientes ultrapasse o nível de alerta a partir de quinta-feira (15), com chance de atingir o de evacuação a partir de sábado (17). Parte da água vem do Brasil: na semana passada, o instituto registrou chuvas mais volumosas nas bacias dos rios Ivinhema e Amambai, em Mato Grosso do Sul, e do Ivaí, no Paraná.

Em Santo Tomé, no norte de Corrientes, o rio subia de 1 a 2 centímetros por hora, por causa das chuvas fortes no Brasil e em Misiones, disse ao Clarín o presidente da Sociedade Rural local, Marco Grisetti. Mais ao sul, em Villa Paranacito, no delta, um criador ouvido pelo jornal contou que a maioria dos produtores com campos sem diques já tirou ou reduziu o rebanho. Na província de Buenos Aires, a Sociedade Rural de San Pedro montou, com o município, três pontos de desembarque para receber os animais retirados das áreas alagáveis.

"Este é o começo do efeito Niño, e começamos um pouco complicados. Não queremos nem imaginar o que pode acontecer mais adiante, no verão", afirmou ao jornal Marcelo Carbonell, ex-presidente da Sociedade Rural de Paso de los Libres.

Simulação vê safra maior, mas não em todo o país

Para as lavouras argentinas, a chuva extra tende a ser boa notícia. Uma simulação da empresa Yieldata, especializada em modelagem agronômica, divulgada pelo jornal La Nación, comparou 42 safras, de 1984/85 a 2025/26, em 459 localidades de 11 províncias. Nos 13 anos de El Niño, a produtividade média estimada da soja foi 11% maior, de 2.846 para 3.170 quilos por hectare, e a do milho, 10% maior, de 7.134 para 7.856 quilos. Os números são simulados, e não colheitas registradas.

Entre Ríos teve os maiores ganhos, de 28,5% na soja e de 19,5% no milho. No norte do país, o efeito se inverte para a soja: o rendimento simulado cai 6,2% em Tucumán, 3,5% em Salta e 2,2% em Catamarca. O excesso de água também pode atrapalhar a colheita. Segundo a simulação, 22% das localidades têm mais água acumulada na superfície em maio, mês de referência da colheita, com destaque para Santa Fe.

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), no relatório de 9 de outubro, ainda projeta para a Argentina 50 milhões de toneladas de soja em 2026/27, ante 49,3 milhões na safra anterior, e 55 milhões de toneladas de milho, abaixo dos 64 milhões de 2025/26. Para o Brasil, a previsão é de 186 milhões de toneladas de soja e 139 milhões de milho.

No Centro-Oeste, o risco é a falta de chuva

No Brasil, o El Niño tende a produzir o efeito oposto no Centro-Oeste. A nota técnica da Embrapa entregue ao Ministério da Agricultura aponta maior probabilidade de chuva abaixo da média no centro-norte do país e acima da média no Sul. Pelas orientações da Embrapa, Mato Grosso, Goiás e o Distrito Federal têm o maior risco de seca, com o período mais crítico entre novembro e janeiro, enquanto o sul de Mato Grosso do Sul pode ter chuva acima da média.

O contraste interessa ao produtor da região porque a Argentina disputa com o Brasil os mesmos compradores. O país vizinho é o maior exportador mundial de farelo de soja, com 30 milhões de toneladas previstas pelo USDA para 2026/27, ante 27,1 milhões do Brasil. No milho, o USDA projeta exportações de 38 milhões de toneladas para a Argentina e de 43 milhões para o Brasil. Uma safra argentina favorecida pela chuva aumentaria a oferta do principal concorrente justamente no ano em que o Cerrado enfrenta risco de seca.

Com informações de Clarín, La Nación, INA (Informe Hidrométrico de 13/10/2026), INA (Reporte diario), INA (Informe semanal nº 10474), USDA (WASDE de outubro de 2026) e Mapa/Embrapa.

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