El Niño forte pode tirar 17,6 milhões de t da soja, diz Serasa; em MT, perda chegaria a R$ 1.430 por hectare
Pelas contas do Campo em Pauta, MT, GO e MS concentram 14,9 milhões de toneladas e R$ 27,9 bilhões do risco. Inmet prevê novembro com chuva abaixo da média no noroeste de MT, no norte de GO e no DF, e calor acima do normal em toda a região.

Um El Niño forte como o da safra 2023/24 pode tirar 17,6 milhões de toneladas da colheita brasileira de soja 2026/27, uma queda de 9,7%, e atingir cerca de R$ 33 bilhões do valor bruto da produção, segundo estudo da Serasa Experian apresentado na terça-feira (27) em entrevista coletiva. No cenário de fenômeno forte, a produção nacional cairia de 181,2 milhões para 163,6 milhões de toneladas. O Centro-Oeste concentra o prejuízo: Mato Grosso perderia 9,7 milhões de toneladas e Goiás, 4 milhões, quase 80% da diferença projetada para o país.
A Serasa cruzou mais de 20 anos de mapeamento por satélite com a produtividade apurada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e com o Índice Oceânico do Niño (ONI), usado pela agência americana NOAA para acompanhar o aquecimento do Pacífico. O método compara a safra 2023/24, de El Niño forte, com a 2024/25, de clima neutro, e aplica as duas produtividades à área que a empresa projeta para 2026/27, de 49,9 milhões de hectares, 1,8% acima da anterior. A média nacional seria de 3.282 kg por hectare, ou 55 sacas, com El Niño forte, contra 3.622 kg, ou 60 sacas, no cenário neutro.
“O que estamos fazendo aqui não é nenhuma previsão determinística de como vai ser a safra 2026/27, mas um exercício de dimensionamento de risco a partir de referências observadas em safras recentes”, afirmou o gerente de geoprocessamento da Serasa Experian, Daniel de Oliveira, líder técnico do estudo, segundo a Forbes. O valor de R$ 33 bilhões vem da multiplicação das 17,6 milhões de toneladas por um preço médio de cerca de R$ 1,88 mil por tonelada, obtido ao dividir o valor bruto da produção da soja, de R$ 340,6 bilhões, por 181,5 milhões de toneladas. A empresa ressalta que o cálculo mantém o preço constante e não é projeção de perda financeira.
O risco em MT, GO e MS
As produtividades usadas pela Serasa são as da Conab. No 12º levantamento da safra 2024/25, a companhia registra em Mato Grosso 3.266 kg por hectare em 2023/24 e 4.028 kg em 2024/25, uma diferença de 762 kg, ou 12,7 sacas por hectare. Em Goiás, a média passou de 3.487 kg para 4.183 kg, 696 kg ou 11,6 sacas a mais. Mato Grosso do Sul, que não aparece nos números divulgados do estudo, teve a menor oscilação entre os três: de 3.049 kg para 3.339 kg, 290 kg ou 4,8 sacas.
O Campo em Pauta aplicou essas diferenças à área que a própria Conab estima para 2026/27 no 1º levantamento da safra, divulgado em outubro: 13,08 milhões de hectares em Mato Grosso, 5,2 milhões em Goiás e 4,45 milhões em Mato Grosso do Sul. Pelas contas, um El Niño forte tiraria 9,97 milhões de toneladas da soja mato-grossense, que cairia de 52,7 milhões para 42,7 milhões, 3,62 milhões da goiana e 1,29 milhão da sul-mato-grossense. Os três estados somam 14,9 milhões de toneladas, 85% da perda nacional calculada pela Serasa. A estimativa de Mato Grosso fica um pouco acima da da empresa porque a Conab trabalha com área maior do que os 12,7 milhões de hectares considerados no estudo.
Ao preço médio implícito no estudo, de cerca de R$ 1.877 por tonelada, a conta chega a R$ 27,9 bilhões nos três estados: R$ 18,7 bilhões em Mato Grosso, R$ 6,8 bilhões em Goiás e R$ 2,4 bilhões em Mato Grosso do Sul. Por hectare, a receita bruta em risco seria de R$ 1.430 em Mato Grosso, R$ 1.306 em Goiás e R$ 544 em Mato Grosso do Sul. Por enquanto, a Conab não embute quebra: o 1º levantamento projeta 181,6 milhões de toneladas no país, 0,7% acima de 2025/26, com 50,9 milhões em Mato Grosso, 20,3 milhões em Goiás e 15,9 milhões em Mato Grosso do Sul.
Segundo Oliveira, o que vai decidir a safra é a distribuição da chuva entre novembro e janeiro, fase de florescimento e enchimento de grãos. “Mato Grosso e Goiás vão puxar 80% do potencial de perda nacional”, disse, segundo a Globo Rural. Em Goiás, afirmou, as áreas de sequeiro do norte e do leste são as mais expostas. O estudo considerou só a soja de primeira safra; o efeito sobre o milho segunda safra e o algodão, caso atraso ou replantio estreitem a janela, não foi calculado. No Rio Grande do Sul, o modelo aponta o contrário, com a produtividade subindo de 2.342 kg para 3.117 kg e a produção, de 16,7 milhões para 22,3 milhões de toneladas.
Inmet vê novembro seco no norte de GO
A previsão climática para novembro, divulgada pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) nesta quarta-feira (28), reforça o risco no norte da região. O instituto prevê chuva acima da média no sudoeste de Mato Grosso do Sul e em parte do norte de Mato Grosso, e abaixo da média no noroeste de Mato Grosso, no norte de Goiás e no Distrito Federal. A temperatura deve ficar acima do normal em todo o Centro-Oeste, com desvio de até 2 °C no noroeste mato-grossense e em grande parte de Mato Grosso do Sul.
Para o Inmet, nas áreas mais ao norte da região, a combinação de calor e chuva abaixo da média aumenta o risco de emergência irregular, redução do estande de plantas e crescimento mais lento das lavouras. Em Mato Grosso do Sul, a continuidade da chuva pode ajudar a recompor a umidade do solo e deixar mais homogêneas as lavouras já implantadas. Em Goiás, o centro-sul tende a ter chuva perto da média.
A Embrapa, que entregou ao Ministério da Agricultura 163 medidas de gestão de risco para o El Niño, situa o período mais crítico de seca no Centro-Oeste entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Na nota regional, recomenda respeitar as janelas do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), usar cultivares mais tolerantes à seca e ao calor, escalonar a semeadura e manter o solo coberto. Se a soja atrasar muito, a orientação é avaliar a troca do milho segunda safra por sorgo ou milheto, de menor custo e risco.
A preocupação já aparece nas contas dos produtores. A Aprosoja-MS, que reúne os produtores de soja e milho de Mato Grosso do Sul, projeta para o estado produtividade 13,2% menor que a da safra passada e avisa, no boletim semanal do projeto Siga-MS divulgado na terça-feira, que o estado estará, entre outubro e dezembro, “sob influência de um El Niño de intensidade muito forte, associado a temperaturas elevadas, ondas de calor e ocorrência de tempestades, com possibilidade de granizo, o que requer atenção dos produtores quanto ao planejamento e à tomada de decisões”.
Com informações de Globo Rural (estudo da Serasa Experian sobre El Niño e soja), CNN Brasil (estudo da Serasa Experian), Forbes Brasil (estudo da Serasa Experian, metodologia), Conab (12º levantamento da safra 2024/25, produtividade por UF), Conab (1º levantamento da safra 2026/27), Inmet (Novembro: como será o clima no Brasil), Canal Rural (recomendações regionais da Embrapa para o El Niño), Giro do Boi (163 medidas da Embrapa) e Aprosoja/MS (Circular Siga-MS nº 685).





