CPR chega a R$ 600 bilhões, mas não aparece nos planos de Lula e Flávio para o financiamento do agro
Lula promete estimular o mercado de capitais e os títulos do agro; Flávio fala em securitização das dívidas do setor. Estoque de CPR chegou a R$ 600 bilhões em agosto.

Os títulos privados ganharam peso no financiamento do agro, mas nenhum dos dois candidatos à Presidência cita esses instrumentos pelo nome. O Campo em Pauta leu os planos de governo de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE): não há menção à Cédula de Produto Rural (CPR), ao Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA), à Letra de Crédito do Agronegócio (LCA) nem aos fundos Fiagro.
Esta é a quarta reportagem da série sobre o que os planos propõem para o campo. O segundo turno é em 25 de outubro.
O tamanho desse mercado
Segundo o Boletim de Finanças do Agro, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estoque de CPR chegou a R$ 600,3 bilhões em agosto, em 359 mil cédulas. A CPR é um título em que o produtor recebe recursos com o compromisso de entregar a produção no futuro. Em junho de 2022, o estoque era de R$ 156,9 bilhões.
- LCA: R$ 561,3 bilhões em estoque. Pelas regras do crédito rural, ao menos 60% desse valor deve financiar o setor.
- CRA: R$ 175 bilhões.
- Fiagro: patrimônio de R$ 65,8 bilhões em julho, distribuído em 291 fundos.
O Mapa alerta que os valores não devem ser somados, porque um título pode servir de lastro a outro. Nos três primeiros meses da safra 2026/27, de julho a setembro, as CPRs responderam por R$ 50,3 bilhões dos R$ 107,1 bilhões contabilizados pelo ministério no financiamento à agricultura empresarial, ou 46,9%. No crédito rural tradicional, o Centro-Oeste contratou R$ 12,7 bilhões no período e teve o maior valor médio por contrato do país, de R$ 1,07 milhão.
O que propõe Lula
O plano de Lula promete continuar “fortalecendo o crédito rural, ampliando os recursos do Plano Safra e assegurando juros compatíveis com a rentabilidade da atividade agropecuária”, com prioridade para máquinas, equipamentos e irrigação. Sobre o financiamento privado, diz: “Buscaremos também continuar diversificando as fontes de financiamento, estimulando o mercado de capitais e títulos do agronegócio.”
Em outro capítulo, voltado à economia em geral, o petista promete “aprofundar o mercado de capitais doméstico – aprimorando o uso das debêntures de infraestrutura, dos fundos de investimento em participações e do mercado secundário de recebíveis”. O texto não traz metas de volume nem mudanças de regras para os títulos do agro.
O que propõe Flávio
O plano de Flávio concentra a proposta para o setor em uma frase: “Vamos ampliar o Seguro Rural e trazer ferramentas de securitização e reorganização das dívidas do setor, dando ao produtor o horizonte de mais de um ano que ele precisa para planejar.” O documento não detalha quais dívidas seriam securitizadas nem como.
Para a infraestrutura, o candidato do PL propõe “um novo modelo de financiamento”, com “fundo lastreado na securitização de ativos e imóveis da União, uso intensivo de PPPs e concessões”. O Plano Safra aparece uma vez, associado a incentivos à produção de biomassa. O plano também liga a titulação de terras ao acesso a crédito e afirma que juros menores dependem do equilíbrio das contas públicas.
O que pede o setor
Segundo a CNN Brasil, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) defendem a chamada Lei do Agro 3, com mudanças nas regras de CPR, CRA, Fiagro e registro de garantias, além de facilidades para o capital estrangeiro. A emissora também apurou que nenhum dos dois planos define metas para a participação do crédito privado no financiamento do agro.
Com informações de TSE (propostas de governo registradas, eleição presidencial 2026), TSE (DivulgaCandContas), CNN Brasil, Mapa (Boletim de Finanças do Agro, agosto de 2026), Mapa (Boletim de Finanças Privadas do Agro, julho de 2026) e Mapa (crédito rural da agricultura empresarial, safra 2026/27).



